segunda-feira, junho 26, 2006

O Homem Duplo (A Scanner Darkly, Philip K. Dick, 1977)

Capa da edição portuguesa, da Coleção Argonauta


Mais uma vez Hollywood vai buscar influência de coisas obscuras pra falar de coisas obscuras através de produtos obscuros, que aparentemente são mais vendáveis atualmente do que contos de fadas. O que é estranho, considerando o tsunami de correção política que assola o mundo atualmente, com uma considerável intolerância a tudo o que é diferente, ou muito destoante do "normal", sendo execrado e pouco desejável.

Philip K. Dick, o autor de ficção científica do século XX mais adaptado para o cinema até o presente momento - Blade Runner, O Vingador do Futuro, Screamers, Minority Report, Impostor, O Pagamento e o novo A Scanner Darkly - deu origem a peças que são veículos pra idéias bastante heterodoxas, inclusive com alguns pontos que tendem a ser tocados mais de uma vez, como abuso de drogas, perda de identidade e a relação do indivíduo com a própria memória (Dick sofria de anamnese, a perda da capacidade de esquecer), mas que são quase sempre amenizadas pra tornar o produto final mais fácil de ser engolido pelas massas que frequentam multiplexes, sendo substituídos geralmente por ação turbinada, explosões barulhentas e um tipo de abordagem que não faz força pra ser fiel aos textos do prolífico autor.

A verdade é que os conceitos philipkdickianos que utilizam o cinema como meio pra se manifestarem estão lá, em menor ou em maior grau, pra quem conhece a obra do autor e mantém um olhar relativamente atento; Blade Runner é a melhor adaptação até então, com o material que estava em Andróides Sonham com Carneirinhos Elétricos? (Do Androids Dream Of Electric Sheep?, 1968), o romance que deu origem ao filme, claramente visível e adaptado de maneira extremamente competente por um Ridley Scott inspiradíssimo (saudades daquele tempo), enquanto O Pagamento é dirigido por John Woo.

A nova adaptação é de Richard Linklater, autor de coisas bem boas, como Antes do Amanhecer e Waking Life, sendo este a referência em termos de visualidade para o novo filme. O site oficial de A Scanner Darkly, inclusive, contém muito material interessante, e uma conexão irrepreensível com a trama, num belíssimo trabalho não só de design, mas também de marketing. Altamente recomendado.

Mas a proposta não era falar dos filmes, e sim do livro, absurdamente bom, seja você fã e consumidor de ficção científica - em especial de cyberpunk e análogos -, seja você um leitor. K. Dick nos leva a um possível futuro do passado no qual ele vivia - e eu não creio que ele imaginou quão perto chegaria da realidade de alguns anos depois -, em que os Estados Unidos da América são palco pra um intenso movimento de substâncias ilícitas e toxicômanos. Obviamente ainda existe uma parcela da sociedade que trava uma batalha contra as drogas, mas que está perdendo feio. No departamento de combate ao narcotráfico agentes especiais utilizam trajes que impedem completamente a sua identificação (fatos confusores, na tradução de Portugal que me chegou às mãos), enquanto nas ruas as drogas são comercializadas a céu aberto. Robert Arctor, ou simplesmente Bob Arctor, é um usuário pesado da Substância D, principal alvo dos esforços de combate ao tráfico de drogas por seu efeito devastador na mente de quem a ingere. Fred, o homem por trás de um dos trajes especiais, é agente secreto do combate às drogas, sua identidade sendo um mistério inclusive para seus superiores, que por sua vez o designam para a missão de acompanhar os passos de Robert Arctor e, inclusive, vigiar a casa onde Bob vive com outros junkies. O que torna tudo um tanto complicado é que Fred é Robert Arctor.

Philip K. Dick não concentrou seus esforços em criar um thriller psicológico situado no futuro, com paranóias, perseguições e carros que voam, como pode-se pensar a princípio. O contexto em que os fatos se inserem são causa e consequência muito específicos de elementos que são parte importante do universo que ele explora em sua obra, força criativa fundadora-integrante do movimento New Wave. Este movimento, que tomou corpo na década de setenta, mas já continha suas peculiaridades lançadas na década de sessenta inclusive pelo próprio K. Dick, baseia-se numa visão mais extrema do futuro apresentado pela ficção científica, comumente utilizando-se de fatores ignorados ou pouco utilizados por autores clássicos deste tipo de literatura (Wells, Clarke, Asimov), como sexo, drogas e comportamentos deviantes. Figuram na lista de personalidades desta nova literatura, que teria sido parte de uma postura reacionária intelectual, nomes conhecidos do meio da ficção, como Harlan Ellison, J. G. Ballard e Michael Moorcock e intelectuais que já caminhavam na marginalidade antes, como o escritor beat William Burroughs. O que se tem por resultado é o lançamento das fundações do que na década de oitenta convencionou-se por chamar de cyberpunk - estilo formatado por William Gibson em Neuromancer, de 1984. É fato que elementos que viriam a definir o estilo, como corrupção, realidades alteradas, tecnologia superior, abuso de drogas e um anti-herói que, em respeito ao "anti" presente em sua definição não trilham a jornada heróica campbelliana, baseiam-se fortemente em elementos dos quais Philip K. Dick extraiu as situações com as quais seus personagens deparam-se, acidentalmente ou como consequência de atos anteriores.

Interessante sublinhar o fato de que através de uma nota, presente na edição portuguesa e, espero, também em todas as outras, K. Dick lança ainda um elemento conceitual que confere à literatura cyberpunk um ponto vital à sua definição: a ausência da moral, enquanto julgamento das ações do indivíduo, neste romance. Em sua nota, o autor explica que o texto de O Homem Duplo baseia-se em experiências com narcóticos vivenciadas por ele mesmo com um grupo que, enquanto escrevia, encontrava-se morto ou em estado de psicose permanente, além de danos diversos advindos do abuso de drogas. Contudo, ele mesmo apressa-se em afirmar que não há valoração sendo feita; as pessoas da lista, amigos e conhecidos, escolheram seus próprios caminhos e tiveram que lidar com as consequências disto. "Vive-se mais rápido e, como é natural, morre-se mais rápido", diz. Este tipo de posicionamento, essencial à existência da estética e do movimento cyberpunk e seus desdobramentos, traz um ambiente em que personagens e fatos não serão julgados por suas motivações ou pelo quê seus atos desencadeiam, como é comum aos clássicos da literatura, do cinema ou de qualquer meio. O delineamento que se dá aos indivíduos abre mão do maniqueísmo em prol da individualidade e de tudo o que ela traz consigo.

É assim que Bob Arctor não se torna vilão mesmo usando quantidades cavalares da Substância D, além de substâncias conhecidas e, aparentemente, qualquer coisa que se ponha em sua frente, bem como é possível rir e mesmo se identificar com situações em que seres humanos agem humanamente, estejam eles sob efeito de drogas ou não, com vislumbres de suas incapacidades, falhas ou tentativas frustradas de suicídio. A inexistência de uma pretensa moral, ou justiça conservadora, ou o que quer que seja, não torna estes indivíduos monstros de comportamento repreensível castigados com a morte ou com o sofrimento típico da obra de Dumas ou de George Lucas, mas indivíduos sujeitos aos efeitos não só de narcóticos, mas também de estar vivo, com tudo que isso significa. É por isso que Fred entra em desespero ao descobrir que os efeitos da Substância D, carinhosamente apelidada Morte, separaram sua persona da de Arctor, bem como Arctor encontra-se numa situação sem precedentes ao ter que vigiar sua própria casa, através de monitores que acompanham todos os passos dados dentro dela. A utilização dos trajes que mudam o rosto de seu usuário constantemente, inclusive, confere à situação de Arctor/Fred um ar de perda não só da personalidade, mas da individualidade, talvez por um desnível ou uma dessincronização entre as naturezas que coabitam a mesma pessoa. As duas partes que restam, personificações do id e do superego de Robert Arctor, a primeira destruída pela entrega aos prazeres mudanos - a casa é imunda e mal-cuidada, drogas de todos os tipos, sexo irresponsável repreensível - e a segunda em eterno desprazer - não consegue lidar com garotas que o abordam, obcecado pelo trabalho -, fruto da repressão pela qual o indivíduo naturalmente passa, encontram-se também (literalmente) incompletas e angustiadas.

Sempre atento à existência humana, ou nem tão humana assim, e suas peculiaridades, Philip K. Dick, infelizmente, ainda é um autor pouco lido, e pouco divulgado, a despeito de suas contribuições excêntricas - no melhor sentido possível -, e de sua capacidade de questionar a humanidade como grupo e como adjetivo. Recomendadíssimo.

sábado, junho 24, 2006

Vidocq (Vidocq, Pitof, 2001)

Tá, o cartaz é legal

Engraçado como o cinema pode ser veículo pra coisas imbecis. Como qualquer exemplar da geração que esteve nos anos oitenta, geração esta privilegiada em vários aspectos, na minha humilde opinião, eu obviamente admiro peças do cinema pipoca, ou de algo que fica entre ele e um cinema mais marginal, ainda que por sua liberdade ao criar ou no tratamento de determinados temas, a despeito do merchandising que veiculam ou da maneira como são vistos hoje. Os dois filmes da série Predador ainda me arrancam lágrimas, em especial o segundo, e eu não vou nem começar a falar de John Carpenter, Ridley Scott e outras coisas - e caras - que tornaram o cinema dos anos oitenta algo com um quê de referencial, ou merecedor de reverência, o que no fim das contas dá no mesmo.

Mas então, ocupei-me de assistir a um tal de Vidocq (Pitof, 2001), meio que recomendado por um outro blog - o Black Zombie -, que tem uns posts que carregam opiniões muito boas sobre algumas coisas em específico, o que querendo ou não, aproxima o gosto deste que vos fala do daquele que lá posta. Voltando à peça, totalmente rodada em formato digital, antes inclusive de Attack Of The Clones, o que não quer dizer nada em absoluto, exceto que a fotografia pode ser... digamos... manipulada de maneira... ousada, ou extrema, tem um visual bastante interessante, uma trama bem legal mas um resultado muito, muito aquém de qualquer expectativa. O que eu tenho pra dizer, e eu preciso muito dizer isso, é que assistir ao filme doeu-me o cérebro, tão ruim que era.

Numa Paris que beira o steampunk classudo que o Alan Moore criou pra Liga Extraordinária, em 1830, o detetive que dá nome ao filme depara-se com um estranho caso de mortes em circunstâncias pouco comuns que, no fim das contas, culmina em sua morte pelas mãos de um vilão que até respira como o Darth Vader. Um jornalista que vinha escrevendo uma biografia do defunto começa a acompanhar o desenvolvimento do caso, fazendo as vezes de detetive ele mesmo, em busca de esclarecimentos acerca do que haveria ocorrido e, segundo ele mesmo, vingança. Pois bem, o que há de errado mesmo, como eu disse antes, não é o plot. Não mesmo. Ele é bem legal, inclusive. Há coisas inteligentes, com um ar de Conan Doyle (tive dúvidas sobre Vidocq ser algo como uma corruptela de Sherlock, mas o Doggma, do Black Zombie, me disse que o detetive francês existiu mesmo). O visual também é muito bom. Nos créditos, o nome Marc Caro, co-diretor de Delicatessen aparece como responsável pelo character design, que é um dos (o?) pontos positivos do filme, tendo sido muito bem executado pela equipe de direção de arte.

Vader e Obi Wan? Não, não. O Alquimista e Vidocq

Qual o problema então? Bem, pra ser muito direto, o problema é a direção mesmo. Diretores que usam a câmera documentalmente, quando não se trata de documentários, é claro, me dão raiva. A construção da imagem do cinema não pode - e não deve - se submeter ao acaso. Bons diretores constróem as imagens de seus filmes de maneira que o que é captado pela câmera serve ao propósito de dizer alguma coisa, ou significar alguma coisa, ou exprimir um tipo de sensação. Kubrick, em O Iluminado, usou a câmera pra meter medo através de travelings pelo Hotel Overlook que ninguém conseguiu fazer igual, e o Tarkovsky, de acordo com sua teoria de que o cinema esculpe um tempo próprio, usa a câmera pra alterar essa experiência de realização do tempo com tomadas longas, travelings e outros artifícios que servem aos seus propósitos enquanto cineasta realizador. Mas tudo isso pra dizer não que o Pitof utiliza a câmera de forma nula. Muito pelo contrário. Ele interfere tanto no que a câmera captura e o espectador vê, que é agonizante.

As cores hiper-saturadas, que ao que parece são uma característica desse cinema francês que tem invadido o mundo ultimamente (vide O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e o próprio Delicatessen) chegam a incomodar, mas nem tanto. Elas servem a um propósito, eu diria. Talvez mais do que qualquer outra coisa sejam elas que dêem o tom de fantasia steampunk ao filme. Talvez, eu disse. Mas o uso de grandes angulares e uma câmera que nunca consegue ficar quieta incomodam tanto, mas tanto, que a experiência de assistir a esse filme foi quase traumática pra mim. A formação desse diretor, que é a de técnico em efeitos especiais, parece ser a culpada pelo sentimento que se tem de que o que assusta, ou o que intriga, é o que o olho não consegue ver, enquanto o desejável é justamente o contrário (não confundir ver com identificar). O próprio John Carpenter, ora citado, já tinha deixado isso muito claro no clássico dos clássicos O Enigma do Outro Mundo.

Essa necessidade de ação desembestada, filmada de um jeito que não se identifica o que acontece, é um tipo de olhar muito chato. O resultado final é um filme nauseabundo e atores como o Gerard Depardieu, que quando quer consegue despertar pro filme uma atenção ao elemento humano que pode ser muito útil, sub-utilizados e colocados em situação que eu imagino ser bem desconfortável pra eles (ou alguém já imaginou antes o Gerard Depardieu numa cena de luta com direito a voadoras e rolagens escada abaixo?).

Não gostei. Achei uma perda de tempo, um filme de muito mal gosto e uma aula do que não fazer pra se ter bons filmes. É uma iniciativa válida, é claro, pelo fato de ser um cinema que não é hollywoodiano, mas o problema é que ele poderia muito bem ser. E, ainda assim, as qualidades dele não passam disso. Se é pra ser um filme de ação que não seja enlatado, que seja um filme desses da safra de chineses voadores que seguiu O Tigre e o Dragão, esses sim visualmente interessantes mas com um algo mais que de fato vale a pena.

segunda-feira, junho 19, 2006

cyberpunk is not dead.