A Conquista da Honra, de Clint Eastwood, não é um filme de guerra. Tem soldados, tem armas, tem sangue e tem batalhas, mas não é um filme de guerra. Esse conceito reducionista é tão bobo quanto afirmar que "Matrix é um filme sobre um homem que aprende a lutar bem rápido". Fato é que o Clint Eastwood é especialista em revisitar gêneros. Nos idos da década de 70, quando ele ainda era um diretor novato - esse é o segundo longa-metragem dirigido por ele -, revisitou o western com seu Um Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, Clint Eastwood, 1973). Depois revisitou várias coisas, umas com mais sucesso como o road movie Um Mundo Perfeito (A Perfect World, 1993) e o thriller Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003), outras com menos, mas a verdade é que o cara é um gênio do cinema. Se enquanto ator a carreira dele foi enclausurada pelo misterioso durão, a de cineasta, na maior parte do tempo, trouxe produtos de inquestionável qualidade.
Em todas estas incursões por gêneros já bem estabelecidos, Eastwood acabou sempre trazendo a estes gêneros um fator humano muito potente, que acabava por jogar com os sentimentos do espectador, criando empatias e expectativas que em condições normais - ou nas mãos de um outro cineasta qualquer - não existiriam. Me lembra, inclusive, de um Biography do canal A&E Mundo que vi alguns anos atrás, sobre o próprio Clint, e no qual uma pessoa próxima a ele - que não me lembro exatamente quem era - dizia que a despeito da carreira de ator dele ser baseada no arquétipo do cara que atira antes pra não ter que perguntar depois, o homem Clint Eastwood "está muito mais pro intelectual do que pro machão". E isso é visível na obra dele como diretor.Neste A Conquista da Honra temos a história - uma versão dela, ao menos - da emblemática fotografia tirada
in loco durante a
batalha de Iwo Jima, em plena Segunda Guerra Mundial. O poder da fotografia, "Raising the Flag on Iwo Jima" de Joe Rosenthal, é tão grande que qualquer pessoa que tenha ao menos um dos olhos funcionando certamente já se deparou com ela, ou com uma paródia dela. Não raro, ela é vista como uma imagem da vitória estadunidense no conflito em questão, mas as informações sobre ela não vão, ou não iam, muito além disso. E o que o filme se esforça pra mostrar é justamente como uma imagem banal - como ele mesmo nos conta - se transformou num símbolo que impulsionaria os EUA - inteiros, incluindo aí pais de soldados mortos, políticos e a população em geral, além dos militares - a um estado de quase-transe, dando respaldo a uma guerra que havia durado demais, esmagando, no entanto, os indivíduos envolvidos no caminho.
O homem em açãoTrês dos seis envolvidos na foto sobreviveram à batalha, e foram mandados de volta à terra firme, onde foram utilizados neste poderoso programa de publicidade bélica engendrado pelos líderes interessados na guerra, como elemento humano, ou de humanização, do conflito como um todo. A idéia era vender bônus para subsidiar a luta que aquele que poderia ser seu filho, seu irmão, seu noivo estava lutando por você. E deu certo. Os EUA, logo após a Segunda Guerra, avançaram muito e tornaram-se essa criatura imensa e cheia de contradições que conhecemos.
E Clint Eastwood traz à tona esta imagem, estas referências e este contexto num momento em que a guerra do Afeganistão ainda mata muito mais jovens do que a população imaginou, a guerra do Iraque continua em voga e a discussão de tudo isso, estranhamente, só esfria. Numa leitura rasa, poderíamos pensar que é um filme guerra, em que os EUA celebram sua vitória, transformando indivíduos em heróis, mas muito mais evidente é o massacre pelo qual passaram os indivíduos, formalizados na imagem dos tais sobreviventes das fotos. As cenas em que rojões confundem-se com bombas, e gritos de gente que morreu em campo continua ecoando nos ouvidos de quem estava lá pra ouvir, me remeteram ao trabalho do pintor alemão
Otto Dix. Numa exposição de gravuras dele que passou por Brasília alguns anos atrás, um texto dizia que após lutar na Primeira Guerra Mundial, ele passou o resto da vida tendo pesadelos todas as noites. Talvez saber desta história especificamente tenha transformado minha experiência em relação à película, mas o fato é que não consegui ver em A Conquista da Honra o que o Kleber Mendonça
viu.
Óbvio que há a condição do herói, e caracteres campbellianos como o mentor que se sacrifica e tudo o mais estão lá, mas é muito claro que a construção da mentira, ou das meias-verdades, é que delimitam o conhecimento e a construção, ou desconstrução, dos personagens. Um deles se afoga nas meias-verdades da própria vida, outro enterra o passado pra viver uma vida normal - a história é narrada pelo filho de John Bradley (Ryan Philippe) e existe de fato no formato de livro, enquanto aquele que tem menos potencial pra ser um queridinho da América (quase um antípoda de John Cusack), especialmente do ponto de vista étnico, não consegue se encaixar no papel que é imposto a ele, tendo sido inclusive tema de uma música bem triste do Johnny Cash.
O destaque, do ponto de vista técnico, certamente fica pra montagem, com cenas em primeira pessoa que me fizeram lembrar de
Medal Of Honor, e em como esse artifício pode parecer pobre, especialmente se pensamos em um filme como
Doom, mas é utilizado com elegância por Clint Eastwood, que se esforça pra construir a guerra de uma maneira muito menos bonita do que Michael Bay, e menos espetacular do que Steven Spielberg (que produz o filme, tornando-se um especialista em WW2 depois de
A Lista de Schindler,
O Resgate do Soldado Ryan e a série
Band Of Brothers. O inegável talento dele pra produção fica pra outra discussão).
Espero a estréia de Cartas de Iwo Jima, um ousado outro lado da história que Clint Eastwood filmou - fortalecendo a minha compreensão de que o aspecto humanista reinou absoluto na dupla de filmes - contando a relação dos japoneses com a mesma batalha.