Quinta-feira, Agosto 14, 2008

Alan Moore e o HQ Mix

Me pergunto quando ele, o cara, vai vir buscar os dezessete (mil) HQ Mix que já ganhou.

Quarta-feira, Agosto 13, 2008

Valorosas escriturações - MMVIII, Pt. I

Designing pages in HTML is like having sex in a bathtub. If you don't know anything about sex, it won't do you any good to know a lot about bathtubs. — Lore Sjöberg, 1995

Informalização de Visualizações

Alguém sabe se é possível terminar com sucesso um curso de Visualização de Informações sem saber programar?

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

Darth Vader Blues

Depois de algum tempo, e de algumas cervejas, volto a postar aqui.

Sábado, Abril 21, 2007

Pre-estréia: Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n'Roll (Idem, Otto Guerra, 2006)

O cartaz

Já aviso a quem for ler: meu interesse por quadrinhos nacionais é quase nulo. E não me venham com essa baboseira de "colonizado" e argumentos mequetrefes do gênero. Quando vejo alguém dizer que "Angeli é deus" sinto até uma dor no coração. Respeito o trabalho não só dele, mas dessa geração toda, mas exclusivamente pela autenticidade, pois a exploração do potencial do meio HQ que esses caras fazem é quase zero. O Angeli tem umas coisas engraçadas, o Gonsales idem. O Laerte não se encaixa muito nisso que eu tô dizendo (a série dos palhaços mudos é foda), mas de maneira geral, os trabalho desse pessoal não me apetece. Dizer que qualquer autor nacional, especificamente de humor, é gênio, é colocar autores que utilizam os quadrinhos de maneira mais interessante num patamar um pouquinho mais alto da grande consciência cósmica que organiza o universo. Roteiristas? Alan Moore, J M DeMatteis, Garth Ennis, Warren Ellis, Neil Gaiman, Jodorowsky. Artistas? John J Muth, Dave Gibbons, Bernie Wrightson, Bill Sienckewicz. Ah, a gente tá falando de tirinhas? Bill Waterson, Charles Schulz, Jim Davis. Não tem jeito. Tem gente demais usando os quadrinhos de forma mais criativa e mais interessante do que ficar fazendo piadas internas de grupelhos oitentistas pra eu levar a produção nacional a sério.

Enfim, fui à pré-estréia do filme aqui em Goiânia, que ocorreu com uns bons cinco ou seis meses de atraso em relação a São Paulo. "Poucas cópias" disse o diretor Otto Guerra. Vá lá. E aqui, abro, pra fechar logo ali, parênteses pra dar os parabéns à organização do evento, que mostrou pra quem quisesse ver como desorganizar a coisa. Mais de uma hora de atraso, falta de filas, gente demais. Era o inferno na terra. Pra piorar, a grande multidão se comportava como um bando de animais, furando o esboço de fila que tentava em vão se formar. Não conseguia parar de pensar que se tivesse custado um mísero real - era de graça -, a quantidade de pessoas ia ser menor do que a metade, e a coisa toda teria sido muito menos desgastante.

Depois de passar pela provação que foi a espera, começa o filme. Eu já não esperava muito, pela antipatia que sinto por esse tipo de material, mas o resultado conseguiu ser muito pior do que eu havia imaginado. Um monte de piadas jogadas ao acaso, de maneira ruim, com tirinhas sendo transcritas na íntegra e uma total falta de timing, de narração, de bom senso. Me pergunto o que o diretor fazia enquanto a equipe (que decididamente não é a melhor do mundo) estava jogando a sombra de roteiro no computador. Porque direção não há. Sem contar a dublagem porca, piorada pelos previsíveis jabás, como a Rita Lee fazendo a voz da Rê Bordosa.

A história é sobre os anacrônicos hippies Woody e Stock tentando formar novamente a banda que tinham na década de setenta, mas é também sobre a Rê Bordosa e suas façanhas etílicas, e também sobre os conflitos entre pais e filhos, e também sobre os conflitos matrimoniais e, enfim, não é sobre nada. Todos os ingredientes são batidos no liquidificador (com pinga vagabunda) e o resultado não podia ser pior. O filme não decide se vai falar abertamente de drogas ou não, se vai dar uma lição de moral no final ou não, se vai chegar a algum lugar ou não. Em alguns momentos, a sensação é de estar assistindo a uma daquelas animações que o Maurício de Souza fazia no final da década de oitenta, e que eram ruins de doer. Reza a lenda que Wood & Stock levou dez anos da concepção ao produto final, mas eu não acredito nisso. Como levaram dez anos pra terminar aquilo? O Kurosawa - e a comparação é válida sim, já que estamos falando de cinema -, escrevia roteiros inteiros em um único dia. E isso na época em que ele fazia filmes de baixíssimo orçamento, e no entanto veja só onde ele foi parar - um dos mais geniais autores de cinema de todos os tempos.

E a qualidade da animação? Como eles conseguiram manter o nível tão baixo durante os 81 minutos de exibição? Porque meios de obter melhor resultado certamente existem, com softwares por aí que qualquer moleque usa de maneira muito mais eficiente, sem contar que animadores fazendo trabalhos (muito melhores) no braço existem desde a década de vinte. Os movimentos são cortados de maneira incômoda, a dublagem não bate com nada, e a emulação do desenho do Angeli definitivamente não funciona a 24 quadros por segundo. Nada ali funciona. É tudo muito, muito ruim mesmo. Não valeu a espera. Pra não dizer que foram horas completamente desperdiçadas, foi legal falar mal depois com a minha parceira no crime.

Me incomoda essa história de valorizar porque é nacional, valorizar porque é do Angeli, valorizar porque é humor. Valorizar besteiras como essa tende a nivelar sempre por baixo os trabalhos desse tipo que possam vir a surgir no país. Isso acontece nos quadrinhos, acontece no cinema e tudo indica que vai acontecer também na já defasada indústria da animação nacional.

A quem interessar possa, dêem uma olhada aí embaixo. Essa foi votada a melhor animação de todos os tempos por 1000 membros da indústria da animação em 1994, e foi produzida em 1957. Alguns podem dizer "Mas é de um grande estúdio". Vale lembrar que na época tudo era feito à mão, e se a tecnologia dessa indústria ainda não avançou o suficiente pra simplificar o processo e substituir os grandes investimentos, animadores brasileiros, por favor voltem a fazer tudo à mão.


Segunda-feira, Fevereiro 19, 2007

Sessão dupla: O Homem Duplo (A Scanner Darkly, Richard Linklater, 2006) e A Conquista da Honra (Flags Of Our Fathers, Clint Eastwood, 2006)

Domingo anterior ao feriado de Carnaval, sem nenhuma das características de domingo. Nenhuma viv'alma nas ruas, e provavelmente também não nos cinemas. Como queria desesperadamente ver os dois filmes, pareceu-me a oportunidade perfeita pra uma dupla sessão.

O Homem Duplo (A Scanner Darkly, Richard Linklater, 2006)


Everything is not going to be ok

Não é segredo a minha fascinação por literatura. Menos ainda se for ficção científica. E ainda menos se for por Philip K. Dick. A cada vez que leio uma biografia dele e encontro uma ou outra informação que ainda não conhecia, fico mais e mais intrigado por este que talvez seja o autor mais poderoso - apesar de que dizer isso me dá um frio na espinha, pois pipocam na minha cabeça nomes como Asimov, Clarke, Gibson, Ballard - do estilo no século passado, que é quando tudo começa.

É importante observar que a obra que o K Dick legou ao mundo no século XX é especialmente única. É muito mais do que "apenas" ficção científica, muito mais do que "apenas" literatura. É bem visível na obra dele a pertinência da frase que o Robert Anton Wilson cita no prefácio de Futuro Proibido: "A realidade é uma muleta pra quem não consegue lidar com a ficção científica". O conteúdo que exibido nos textos de PKD são de uma profundidade aterradora. Olhando pra obra dele é impossível não se assustar com a quantidade de obras e conteúdos muito pesados abordados. Engraçado como o tempo passa e o que ele discutiu a trinta, quarenta anos atrás fica mais explícito, mais atual e ainda mais perturbador. E a genialidade fica cada vez mais indiscutível. Qualquer dia eu faço aqui uma tradução do monstruoso How to build an universe that doesn’t fall apart two days later, um texto de 1978 que ilustra mais do que bem essa genialidade da qual eu não me canso de falar.

Sobre o filme, omo era de se esperar numa adaptação, surge um sentimento de atropelamento. Quem leu o livro (que já tem até crítica), termina por se perguntar onde está essa ou aquela cena. Mas a despeito disso, o Linklater é um cara bem competente, e fica no ar uma alegria juvenil de ver tão bem adaptada uma obra do tamanho de O Homem Duplo.

É levada aqui de maneira menos experimental do que em Waking Life a técnica chamada rotoscopia, em que uma filmagem é transformada em animação. Waking Life era uma obra sobre pensamento, tinha muito de filosofia, de discussões linguísticas, de possibilidades de comunicação, e a técnica respaldava com imagens o que era discutido (a idéia da criação dos sons pra "cuidado com o tigre"), ou ela mesma era a discussão (quando um homem se queima pra chamar atenção). Aqui o que temos é a técnica utilizada pra simular efeitos psicotrópicos e cognitivos, dando suporte aos diálogos que, pra quem conhece um pouco de alteração de faculdade mentais, já são a dica.

A incapacidade de contar quantas marchas tem uma bicicleta, o sentimento de querer se isolar, a paranóia, as alucinações. Está tudo lá, criando o sentimento de desorientação pretendido e que funciona muito bem nessa adaptação especificamente. Claro que há outros detalhes que transcendem a experiência na sala de cinema, e estendem-se pra outros elementos, de maneira que o valor do filme constrói-se também através da crítica, ou da absorção, de valores existentes além dele mesmo. A proposta de Linklater de trabalhar com atores que publicamente já foram ou são drogaditos num filme que, em determinado momento, critica a estrutura que termina no esmagamento do indivíduo por fatores externos, químicos ou não, certamente não é um acidente. É visível, e aí entra também o fator místico kdickiano, a proposta de apontar dedos para lugares pouco visitados, ao invés de lidar com a coisa de maneira simplista.

What does a scanner see? Into the head? Down into the heart? Does it see into me? Into us? Clearly or darkly?

Considerando que a temática do filme é o consumo de drogas de maneira que o indivíduo se perde em meio às várias camadas de realidade, o resultado poderia ser uma baboseira anti-drogas do tipo "pare de usar e seja feliz", mas não é o caso. A quem beneficia a cultura (inclusive no aspecto agronômico) das drogas? A maneira como se lida com isso é a correta? Até onde vai o poder do indivíduo em relação a substâncias químicas que alteram a realidade? As perguntas estão todas lá, ainda que muitas não tenham resposta - e talvez nunca tenham. Surpreendeu a inclusão ao final de um trecho do posfácio presente no livro em que PKD cita nomes de pessoas próximas a ele que morreram ou tiveram problemas permanentes decorrentes do abuso de substâncias narcóticas.

As decisões que Linklater tomou na adaptação foram as mais acertadas, e o resultado é um filme que definitivamente não é pra todo mundo, principalmente pela ausência do simplismo tão em voga em Hollywood (visual, textual, conceitual) e dos valores tão bem quistos pelo cidadão comum, de bem. Era um filme que eu esperava ansiosamente e que não decepcionou. Aguardo ansiosamente pela versão em DVD.

A Conquista da Honra (Flags Of Our Fathers, Clint Eastwood, 2006)

O poster do filme, que é pouco mais do que a foto original romanceada

A Conquista da Honra, de Clint Eastwood, não é um filme de guerra. Tem soldados, tem armas, tem sangue e tem batalhas, mas não é um filme de guerra. Esse conceito reducionista é tão bobo quanto afirmar que "Matrix é um filme sobre um homem que aprende a lutar bem rápido". Fato é que o Clint Eastwood é especialista em revisitar gêneros. Nos idos da década de 70, quando ele ainda era um diretor novato - esse é o segundo longa-metragem dirigido por ele -, revisitou o western com seu Um Estranho Sem Nome (High Plains Drifter, Clint Eastwood, 1973). Depois revisitou várias coisas, umas com mais sucesso como o road movie Um Mundo Perfeito (A Perfect World, 1993) e o thriller Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003), outras com menos, mas a verdade é que o cara é um gênio do cinema. Se enquanto ator a carreira dele foi enclausurada pelo misterioso durão, a de cineasta, na maior parte do tempo, trouxe produtos de inquestionável qualidade.

Em todas estas incursões por gêneros já bem estabelecidos, Eastwood acabou sempre trazendo a estes gêneros um fator humano muito potente, que acabava por jogar com os sentimentos do espectador, criando empatias e expectativas que em condições normais - ou nas mãos de um outro cineasta qualquer - não existiriam. Me lembra, inclusive, de um Biography do canal A&E Mundo que vi alguns anos atrás, sobre o próprio Clint, e no qual uma pessoa próxima a ele - que não me lembro exatamente quem era - dizia que a despeito da carreira de ator dele ser baseada no arquétipo do cara que atira antes pra não ter que perguntar depois, o homem Clint Eastwood "está muito mais pro intelectual do que pro machão". E isso é visível na obra dele como diretor.


Neste A Conquista da Honra temos a história - uma versão dela, ao menos - da emblemática fotografia tirada in loco durante a batalha de Iwo Jima, em plena Segunda Guerra Mundial. O poder da fotografia, "Raising the Flag on Iwo Jima" de Joe Rosenthal, é tão grande que qualquer pessoa que tenha ao menos um dos olhos funcionando certamente já se deparou com ela, ou com uma paródia dela. Não raro, ela é vista como uma imagem da vitória estadunidense no conflito em questão, mas as informações sobre ela não vão, ou não iam, muito além disso. E o que o filme se esforça pra mostrar é justamente como uma imagem banal - como ele mesmo nos conta - se transformou num símbolo que impulsionaria os EUA - inteiros, incluindo aí pais de soldados mortos, políticos e a população em geral, além dos militares - a um estado de quase-transe, dando respaldo a uma guerra que havia durado demais, esmagando, no entanto, os indivíduos envolvidos no caminho.

O homem em ação

Três dos seis envolvidos na foto sobreviveram à batalha, e foram mandados de volta à terra firme, onde foram utilizados neste poderoso programa de publicidade bélica engendrado pelos líderes interessados na guerra, como elemento humano, ou de humanização, do conflito como um todo. A idéia era vender bônus para subsidiar a luta que aquele que poderia ser seu filho, seu irmão, seu noivo estava lutando por você. E deu certo. Os EUA, logo após a Segunda Guerra, avançaram muito e tornaram-se essa criatura imensa e cheia de contradições que conhecemos.

E Clint Eastwood traz à tona esta imagem, estas referências e este contexto num momento em que a guerra do Afeganistão ainda mata muito mais jovens do que a população imaginou, a guerra do Iraque continua em voga e a discussão de tudo isso, estranhamente, só esfria. Numa leitura rasa, poderíamos pensar que é um filme guerra, em que os EUA celebram sua vitória, transformando indivíduos em heróis, mas muito mais evidente é o massacre pelo qual passaram os indivíduos, formalizados na imagem dos tais sobreviventes das fotos. As cenas em que rojões confundem-se com bombas, e gritos de gente que morreu em campo continua ecoando nos ouvidos de quem estava lá pra ouvir, me remeteram ao trabalho do pintor alemão Otto Dix. Numa exposição de gravuras dele que passou por Brasília alguns anos atrás, um texto dizia que após lutar na Primeira Guerra Mundial, ele passou o resto da vida tendo pesadelos todas as noites. Talvez saber desta história especificamente tenha transformado minha experiência em relação à película, mas o fato é que não consegui ver em A Conquista da Honra o que o Kleber Mendonça viu.

Óbvio que há a condição do herói, e caracteres campbellianos como o mentor que se sacrifica e tudo o mais estão lá, mas é muito claro que a construção da mentira, ou das meias-verdades, é que delimitam o conhecimento e a construção, ou desconstrução, dos personagens. Um deles se afoga nas meias-verdades da própria vida, outro enterra o passado pra viver uma vida normal - a história é narrada pelo filho de John Bradley (Ryan Philippe) e existe de fato no formato de livro, enquanto aquele que tem menos potencial pra ser um queridinho da América (quase um antípoda de John Cusack), especialmente do ponto de vista étnico, não consegue se encaixar no papel que é imposto a ele, tendo sido inclusive tema de uma música bem triste do Johnny Cash.

O destaque, do ponto de vista técnico, certamente fica pra montagem, com cenas em primeira pessoa que me fizeram lembrar de Medal Of Honor, e em como esse artifício pode parecer pobre, especialmente se pensamos em um filme como Doom, mas é utilizado com elegância por Clint Eastwood, que se esforça pra construir a guerra de uma maneira muito menos bonita do que Michael Bay, e menos espetacular do que Steven Spielberg (que produz o filme, tornando-se um especialista em WW2 depois de A Lista de Schindler, O Resgate do Soldado Ryan e a série Band Of Brothers. O inegável talento dele pra produção fica pra outra discussão).

Espero a estréia de Cartas de Iwo Jima, um ousado outro lado da história que Clint Eastwood filmou - fortalecendo a minha compreensão de que o aspecto humanista reinou absoluto na dupla de filmes - contando a relação dos japoneses com a mesma batalha.

Segunda-feira, Dezembro 04, 2006

Verborragia I

Me peguei pensando em umas coisas. Como, numa atitude completamente honesta e inócua, havia decidido escrever as coisas que me trespassam o cérebro, percebi que talvez pudesse começar escrevendo aqui. O Nobel de Literatura que me espere.

Enfim, me peguei pensando sobre o papel dos professores na formação do indivíduo, especialmente no período do segundo grau, ou ensino médio, ou científico, ou como quer que esse período se chame. A princípio é um pedaço da vida que parece que vai durar pra sempre, dada a quantidade de coisas que o pobre adolescente tem pra se preocupar e acaba sem ver o tempo passar (provavelmente uma idéia plantada pelo trabalho de mídia ao qual somos submetidos diariamente, e que nos faz pensar que o jovem é o centro do mundo). Mas eu vejo esse período como um período em que fica mais ou menos claro que tipo de pessoa aquele indivíduo vai se tornar. Não que seja uma regra, ou que eu tenha desenvolvido um método de saber isso, mas enfim. Há, por exemplo, aqueles que se penteiam muito, aqueles que pensam em sexo o tempo inteiro, aqueles que pensam em drogas o tempo inteiro e aqueles que só existem. De maneira geral, pelo que pude constatar, em sua grande maioria os indivíduos continuam a se interessar pelas mesmas coisas, ou por suas adjacências, num movimento espiral que, desejavelmente vai englobar mais e mais coisas, apesar de que muitas vezes as pessoas continuam se interessando exatamente pelas mesmas merdas, o que assusta pela falta de capacidade de evoluir.

Bem, o que eu queria dizer sobre os professores que passam por nossas vidas é o quanto o papel que eles cumprem é ridículo. Eu, pelo menos, como hamster da classe média, estudei toda a minha vida em colégios particulares (não fancy, mas particulares), especialmente em um católico, no qual eu passei exatos dez anos. Não consigo parar de pensar na merda que é ser submetido a um tratamento de formação de um cidadão de bem promovido por essas pessoas cretinas que não conseguem enxergar um palmo à frente do nariz. Toda essa coisa de "viver do jeito certo" enoja, principalmente quando é ensinada por gente que muitas vezes é, ou poderia ser, a personificação da depressão. Me lembro de ser obrigado a fazer orações cristãs católicas toda quinta-feira de manhã, num ritual macabro em que uma freira falava por um sistema de áudio interno com todos os alunos, de todas as salas, numa referência involuntária ao Grande Irmão - ou, no caso da freira, Grande Irmã. Como é possível que alguém me diga o que é certo? Hoje, alguns anos mais velho, eu percebo que, na verdade, eles estavam tão inseguros (a despeito das poses de vencedores do grande concurso de beleza do momento) quanto aquele mar de púberes. Obviamente a cretinice não era uma via de mão única: como eu disse antes, em alguns casos a cretinice já era visível então, mas o fato é que nada daquilo funcionou.

As pessoas lá, e não só lá, eu tenho certeza, não eram ensinadas a pensar, mas a se ajustar a uma vida reta: seja cristão, case-se, não use drogas (a menos que seja álcool ingerido socialmente), arrume um emprego que seja digno, que pague relativamente bem, mesmo que você odeie aquilo que você tem que acordar cedo todo dia pra fazer, e ame o próximo (até que ele ofenda sua mãe no trânsito). Não que os professores de faculdade sejam muito melhores, mas o fato é que o pensamento deles, ao menos dos que eu conheço, de quando fiz o curso na universidade federal, não era exatamente o de formar pessoas cínicas - porque é isso que as escolas de classe média fazem -, mas pensantes, ainda que num aspecto bastante restrito ao assunto do curso. Menos mal, penso eu. Ao menos são cretinos especializados.

Domingo, Dezembro 03, 2006

O Labirinto do Fauno (El Laberinto Del Fauno, Guillermo Del Toro, 2006)

Pôster desenhado por Mike Mignola

Fui ontem assistir O Labirinto do Fauno, última obra de Guillermo Del Toro que já nos havia trazido produtos relativamente interessantes (Hellboy) e outros nem tanto (Blade 2). Uma das marcas do trabalho dele no passado era justamente não deixar muitas marcas, o que não é de todo incomum, se formos pensar em direção de filmes montados para ser sucessos comerciais. Mas neste trabalho em específico, talvez por ser uma obra bastante autoral (falada em espanhol, inclusive), podem-se ver escolhas narrativas e gráficas que mostram-se traços de um controle quase pleno por quem escreveu, produziu e dirigiu o filme.

A história começa na Espanha franquista, em 1944, na qual Ofelia, uma menina que adora livros, vive sozinha com sua mãe, Carmen, que por sua vez está grávida do Capitão Vidal, um cara muito, muito malvado. Militar, machista, católico e de extrema direita, o Capitão vai esmagando crânios e arrancando pedaços de pessoas perigosas ao regime que ele serve numa fazenda próxima a um dos focos de rebelião. Como ele crê que "um filho deve nascer onde seu pai está", lá vêm Carmen e Ofelia para viver junto dele.

Ao chegarem na casa, as duas entram em contato não apenas com uma reprodução em menor escala do regime que governa o país - militarista, machista, católico e esmagador de crânios - mas também com pessoas que servem ou fingem servir este regime. Ofelia, e apenas ela, entra em contato, também, com seres míticos que vivem num labirinto que existe nos derredores da casa, através de uma fada que surge quando ela recoloca no lugar um olho caído de uma estátua - olhos são um elemento que Guillermo Del Toro utiliza com grande força simbólica aqui.

Dentre essas criaturas, encontra-se o fauno que aparece no título, que ao contrário do que vemos de maneira geral (em produtos da Disney, por exemplo), é uma criatura deveras assustadora, tanto sonora quanto visualmente, em especial quando sai ou entra nas sombras de um canto escuro de um quarto, uma imagem terrivelmente amedrontadora. Este fauno, cujo nome "só pode ser proferido pelo vento e pelas árvores", segundo ele mesmo, explica a Ofelia que ela é a princesa de um reino antigo e que seu pai verdadeiro (a garota é órfã paterna, e se recusa a chamar o capitão de pai, como sua mãe insiste em pedir) espalhou portais pelo mundo, a fim de que, quando ela descobrisse a verdade, pudesse voltar para seu reino. No entanto, ela precisa provar que é a princesa, e para isso cumprir três testes que envolvem não apenas elementos fantásticos, mas repercussão também no mundo real em que o Capitão Vidal reina absoluto.

Faunos saindo de cantos escuros de quartos são algo a se temer, não?

As influências mais do que claras de contos de fada (em especial Alice no País das Maravilhas, com direito a indumentária e portas miúdas), são um elemento metalinguístico forte, que gera um dos conflitos que move o filme: estará Ofelia imaginando tudo ou o fauno existe mesmo? As pessoas que vivem a sua volta, como Mercedes, uma das pessoas que trabalha na casa e esconde um segredo que mais tarde trará grandes consequências, diz a ela que faunos não são confiáveis e que acreditava em fadas na infância, mas que agora não crê mais nessas coisas. Sua mãe, que carrega no útero o filho homem do capitão, sendo esta, declaradamente, sua única utilidade no mundo, também grita que não existe magia, não existem faunos e que o mundo é menos bonito do que Ofelia o força a ser.

Esta discussão, inclusive, torna mesmo o mundo encantado que só a menina conhece e para o qual luta para voltar um mundo feio, com criaturas decadentes e elementos de horror muito claros. O próprio filme sucede em se posicionar como um filme de horror, tanto psicologicamente (se Carmen morrer, onde vai parar Ofelia?) quanto em termos de imagens, mesmo estas se subdivindo em duas instâncias: o mundo real (pessoas sendo assassinadas friamente e através de meios cruéis por homens fardados) e o mundo encantado (criaturas devoradoras de crianças que têm olhos nas mãos). As imagens medonhas, inclusive, têm uma grande influência do trabalho de Mike Mignola, talvez o maior autor de quadrinhos de horror de nossos tempos, e amigo pessoal de Guillermo Del Toro.

Eu não conseguiria pensar em algo tão escrotamente bizarro.

É também algo a se pensar a maneira como a narrativa sobrepõe as duas realidades de maneira que significações sejam explicitadas, ou algo próximo disso, de maneira inteligível: a criatura que se alimenta de fadinhas (e crianças, como somos informados através de uma pintura), a despeito do banquete posto à sua frente não demonstra nenhum desejo por ele, preferindo molestar as criaturinhas indefesas. Ora, não é isso que faz um regime autoritário como o franquista? O horror das extremas direitas, que já havia sido explorado por Mignola e Del Toro em Hellboy, tanto nos quadrinhos como no filme, reaparece aqui, com os uniformes cinzentos e a falta de escrúpulos. A presença de criaturas que possuem os mesmos hábitos ruins que o governo na fantasia de uma criança, tornam o contexto no qual vive um tanto mais compreensível, e denota uma crítica mordaz por parte do infante em questão.

A utilização deste recurso no filme talvez seja seu maior mérito. A construção da narrativa como um conto de fada (de terror), ainda que não se saiba se o que vemos é um de fato ou apenas os devaneios infantis de Ofelia tornam a experiência cinematográfica aqui bastante aprazível. Me pergunto o que acontece com pessoas, como as que estavam na minha sessão, que ao final do filme exclamam "que porcaria!". Será que elas estavam falando sério? E eu, do fundo do meu poço, vejo méritos não apenas no filme per se, mas também no que é claramente um amadurecimento técnico do cinema que não é falado em inglês. Em termos de apuro técnico, esse filme não fica devendo nada a um Senhor dos Anéis da vida, com a vantagem de ser muito, muito mais autoral. Aparece como algo a se somar ao que um Almodóvar, ou os argentinos já fazem há algum tempo, que é estruturar dramas humanos de maneira eficiente, ainda que nestes casos não se faça presente, e nem necessário, a inclusão digital ou via animatronics de criaturas fantásticas.